Tatuagem
É tanta beleza
É tanta grandeza
É tanto
Que mesmo diante de tanto contato
A pergunta que me vem é: quanto?
Por quanto tempo terei tanta sorte?
Quanto de vida haverá antes e após?
Tudo isso eu penso, quando penso em nós.
(Felipe Rocha, 18 de maio de 2012)
Happy hour
Afrouxar o nó da gravata...
Descansar o paletó e recolher as mangas da camisa...
Defazer-se do barulho perturbador do telefone e dar lugar ao banzeiro quebrando na areia e às notas doces do violão que dedilho...
Trocar a tela do computador pelo poente deitando no mar... da janela de um barzinho qualquer...
O ar frio do ar condicionado pela brisa morna vespertina que farfalha os cabelos...
E o café preto que sustenta quem não tem direito a siesta por um chopp gelado que afasta qualquer sede...
Ao invés de reuniões sobre metas, lucros e afazeres, falar de mulheres, de arte e de tantas outras coisas que tornam o mundo mais belo...
É num fim de tarde como este, comum e desprentesioso
Que, entre uma bossa, um brinde e uma gargalhada
A felicidade, como quem não quer nada, mostra a sua cara...
E me faz ver que ela não é algo assim tão distante quanto um dia eu pensei que fosse...
(Felipe Rocha, 30 de abril de 2012)
Que pranto é esse que contenho
Que o espelho ilude e a voz cala
Que, em hora menos esperada,
Impõe um súbito silêncio
Que dizem as lágrimas que não choro
Por mais que tente e que queira
Tão forte é a oculta represa
Que até o motivo eu ignoro
O que, além do choro, é preso
Por este que teme mostrar-se
Sem máscara ou qualquer disfarce
Do que será que ele tem medo
O que há por trás do riso falso
E da mudez cogente e súbita
Que, em vão, tentam manter oculta
A face triste do palhaço
?
(Felipe Rocha, 16 de maio de 2012)
Pra ti
Não é teatro que faço, ao dizer-te
Que, em teus olhos, castanhos espelhos,
É que enxergo a ternura e, sem medo,
Um caminho em carinho e em prazeres
Nos riscos, ariscos, que traço
Não traduzo um terço do que sinto
Do que sou, do que almejo e atinjo
Desde quando fui arrebatado
Se descubro ser sonho o que vivo
E que eu, na verdade, adormeço
Não restaria, pela vida, apreço
Mas, apenas, um imenso vazio
A distância eu até não contesto
Desde que seja algo temporário
Mas, se definitiva, ao contrário
Em quilômetros é que a dor meço
De tudo que há no mundo e me escapa
Sei que há muito que passa e que perco
Mas, daquilo que colho em meus dedos
És a pepita mais linda e mais rara.
(Felipe Rocha, 9 de abril de 2012)
Versos malditos (II)
De que vale tanta gente nas ruas
Se eu sou invisível a seus olhos
Se meus gritos não são ouvidos por seus ouvidos delicados?
De que vale tanto abrigo em meu lar
Se ele não contém os calafrios noturnos
E os suores que me encharcam as cobertas?
De que vale este belo sorriso
Se ele nega o que dói e o que arde
E ainda tranca em escuro calabouço o que sufoca?
De que vale tanta integridade
Se há uma fenda sangrando violenta
Que bifurca qualquer coerência?
De que valem tantas companhias
Se só veem o que é honrado e o que é santo
E ignoram este demônio que chora?
(Felipe Rocha, 3 de abril de 2012)
Foi um reencontro.
Não só entre mim e o cantor e compositor da minha banda favorita, mas entre aquele garoto tímido e magricelo de 17 anos, que tinha a cabeça cheia de sonhos, e o cara de 28 anos, que continua sendo um sonhador, apesar de ser mais cético e pragmático que aquele menino.
Foi uma noite de reflexão sobre a dialética entre o que mudou e o que permaneceu, que é bem descrita pela letra de “Além da máscara”: “
Num piscar de olhos tudo se transforma
Tá vendo? Já passou. Mas, ao mesmo tempo, fica o sentimento de um mundo sempre igual”.
Permaneceu a emoção de cantar todas as músicas do show, nas primeiras filas, o mergulho subjetivo e intimista que as letras do elemento comum entre as duas bandas sempre provoca e a recusa em olhar para o relógio por receio de que o show já estivesse acabando.
Mudaram os amores, muitos amigos, as concepções filosóficas sobre vida e liberdade. Mudaram até mesmo minhas leituras e interpretações sobre várias letras que compõem a vasta discografia do Humberto, a partir de vivências e angústias que, em mim, suscitaram novas reflexões e pontos de vista.
Enfim, mudou muita coisa. Mas, assim como é possível notar algo em comum entre as distorções do 10.000 destinos e do Surfando Karmas & DNA e os arranjos folk do Pouca Vogal, também pude notar o liame existente entre mim e aquele garoto de 17 anos. Como se, nele, estivessem as raízes de muito do que fiz e do que me tornei ao longo desses mais de 10 anos que separam o primeiro show dos Engenheiros do Hawaii em São Luís e o do Pouca Vogal.
É como se, ontem, ele estivesse ao meu lado vendo e ouvindo o Humberto Gessinger contagiar o público com suas letras e arranjos feitos em diversos instrumentos.
Foi curioso ver pessoas que certamente eram crianças pequenas quando do primeiro show em São Luís, em 2001, cantando e se emocionando, não só com as músicas do Pouca Vogal, mas com as músicas dos Engenheiros do Hawaii que foram compostas quando eu ainda era uma criança pequena.
Diz a letra de “Pose (anos 90)” - que agora é apenas “Pose” -, que “o futuro se impõe e o passado não se aguenta”. Mas, o encantamento dessas novas gerações por músicas antigas mostra que, como todas as verdades fragilizadas na conjuntura da pós-modernidade (em que tudo que é sólido desmancha no ar, dando lugar à “sociedade líquida”), esta também deve ser relativizada.
Na verdade, essa confluência entre passado, presente e futuro que vivenciei ontem só me fez pensar no verso de “Amanhã colorido” que diz que “o tempo está no pensamento”, que, assim como a letra de “Nunca mais poder”, me transmite a mensagem de que, ao avaliar a própria vida, o que é relevante não é o “Quando”, mas sim o “quanto”. Seja em relação à quantidade de anos vividos ou à intensidade das experiências vividas.
E o fato de esse evento ter ocorrido no fim de março veio bem a calhar, porque, em razão do que representa o dia dezessete, é nesse mês chuvoso que reflito sobre a liquidez do mundo, das pessoas e de mim mesmo, seja por ser pisciano ou, simplesmente, porque os karmas & DNA pelos quais eu surfo me levaram a pensar assim.
É, valeu a pena ter desembolsado esses setenta reais e ter aguardado noventa minutos em pé.
O repouso calmo das plantas no jardim de inverno
Uma réstia de Sol vespertino que entra pelo vão entre as telhas
Uma xícara de café preto após um cochilo de siesta
Um carinho de vó inesperado e espontâneo
Uma conversa contigo, com banho de Sol e cerveja, sobre os mistérios femininos
Um banho de piscina, com massagem da cachoeira, em plena uma quinta-feira não-feriado
Uma tarde na estrada silenciosa, livre e cercada de verdes
Alguns goles de vinho com antigos poetas
Um jazz, um blues, um whisky com coca-cola
Desabafos, descobertas, desvarios
Alvoradas, luaradas, poemas e canções
Liberdades, juventudes, horas felizes
Distantes abraços, distantes lembranças, calores humanos
Uns versos, uns convites, um samba pitoresco
Amigos queridos, meu bem, meu abrigo
De tantas metades, compõe-se este inteiro.
Eu te amo (II)
Mais que versos muito bem rimados
São os abraços bastante apertados
No cinema, quando estou com frio
E as piadas das quais nós sorrimos
Mais que belos acordes e notas
É o sincero interesse que mostras
Em resolver os meus fúteis problemas
Quando vês que aquilo me atormenta
Mais que um “eu te amo” dito nos olhos
É conheceres os livros que gosto
E o silêncio que tu, gentilmente
Me concede se estou em TPM
Mais que cartas de amor bem escritas
É aceitares não ir à pizzaria
Em respeito à minha doença
Sem qualquer reclamação ou ofensa
Mais que surpresas ou que serenatas
É tu saíres tão tarde de casa
Para me dares remédio e cuidado
Mesmo se for somente um resfriado
Mais do que flores e que chocolates
É tua paciência com as preliminares
E o teu evidente esforço
Para que eu também desfrute o gozo
Então, que se danem os que dizem
Que tu não és um cara romântico
Só me importa o que os gestos transmitem
E, por isso, te digo: eu te amo.
(Felipe Rocha, 27 de fevereiro de 2012)
teus braços de carne teu olhar silêncio teu frio teu colo
teus buracos janelas teus ocasos de nada
tive já não vejo
te vi já não tenho
teus sim lindos consolos teus arroubos de tinta tuas incoerências
tenta tanta gente
sente sem ti perto
teu mais caro ser viço visceral ávida
tuas excrescências seleta tuas inconseqüências
vinte vezes ver-te
corta cor ação
tuas pernas cerradas vestindo caretas cimento concreto
tuas chuvas alvoradas tuas migalhas teus apertos entradas
distante dizes tanto
também tão bem te arvoro
tuas espirais esperanças teus tremores secretos
se em cio me escreve céu luar encartas
teus projetos distantes teus vacilos errantes
teus olhares vendados arrepios faceiros
tive já não vejo
te vi já não tenho
(Felipe Rocha, 15 de fevereiro de 2012)
Nu,
Me sobem as vergonhas
Se revelam as feiúras
Assimetrias e o frio
E uma beleza turva
Fico desprotegido
Nu,
Vêm os medos de ataques
Do mundo e das pessoas
E também os olhares
Que, no espelho, refletem
Vulnerabilidade
Nu,
Aumenta o (con)tato
Que provoca as(r)dores
E um vazio, um vácuo
Que me deixa intrigado
Leve e livre e as cores
Nu,
Despedaçam-se as máscaras
São as rasgadas as capas
Como(um) em meus pesadelos
Mas, é nu, que me des-cubro
E que me (re)conheço
(Felipe Rocha, 3 de fevereiro de 2012)
Tanto maldisseram o hábito de Narciso de contemplar sua própria imagem que até ele passou a ver isso como um hábito feio. E como feiúra ele não tolerava, valeu-se de um artifício pra ocultar sua necessidade de tanto se auto-admirar: fez um encanto que fez com que, em diversas coisas e pessoas espalhadas pelo mundo, a sua imagem fosse refletida, ainda que, à primeira vista, se tratasse de um outro ou de outra coisa.
Mas a presença de tantos espelhos dissimulados acabaram lhe causando um sério transtorno: chegou um momento em que ele já não conseguia distinguir o que era sua imagem do que era genuinamente diferente dele. E se sentiu profundamente só.
Mas não é só.
Assim como refletiam seus belos sorrisos, também lhe mostravam, os reflexos espalhados ao seu redor, suas caras de medo, ódio, tristeza e angústia, que continham uma feiúra intrínseca. Fato este que o tornou muito avesso às companhias de outras pessoas porque, à medida que tais sentimentos negativos se tornaram constantes, ele só conseguia vê-las desferindo olhares assustados e assustadores para ele, já sem saber se o que via nos espelhos era o seu olhar sobre os outros ou o seu olhar sobre si mesmo.
Quando, por fim, tudo aquilo se tornou insuportável, atirou-se num lago deserto de gente. Ali percebeu que, enquanto se movia assustadamente, a sua imagem não se firmava, ante a o vai-vem das águas. E foi só quando ficou tranqüilo que o tremor cessou e que ele viu sua face. Não mais a face feia que ele passara a ver com freqüência, mas a linda face que ele tanto gostava de contemplar.
Ele olhou para trás e viu todas aquelas pessoas cujas faces ele se tornara incapaz de ver, em face do encanto. Teve medo de só olhar feiúras quando retornasse. E, no lago, decidiu morrer.
Demorou um pouco, mas a família finalmente aceitou seu estranho hábito: jamais sair em fotografias ou fotografar qualquer pessoa, lugar ou coisa pelos quais tivesse apreço.
Só um tipo de retrato ele apreciava: o que continha imagens totalmente desvinculadas de sua própria vida e que, por isso, eram admiradas apenas do ponto de vista artístico e estético.
A justificativa que ele dava para rejeitar as demais era simples até: só o presente é real, tudo que re-presente o que já foi é ilusório.
Dizia também que, hoje, com a invenção das fotografias, as pessoas mais se importavam com a forma que os momentos eram retratados do que com o que era vivido no momento em si. E que quem perde tempo voltando o olhar para o passado deixa a curta vida que nos é dada escoar pelas mãos.
Por isso, nada de fotos! Nem de cartas! Essas últimas, como eram produzidas por ato unilateral do remetente, eram queimadas assim que lidas e que o seu conteúdo era absorvido.
Quando seu pai morreu, perguntaram-lhe se não gostaria de ver, juntamente com os outros membros da família, as fotos que guardavam a imagem de seu genitor. Mas ele respondeu que não. “Se a vida continua, nos reencontraremos em alguns anos e só me interessa conhecê-lo como ele é, não como foi. Se, por outro lado, estivermos enganados e a vida cessar mesmo com a morte, é melhor aprender a lidar com as ausências de quem já foi, para que não desperdicemos esses breves anos chorando por quem não volta”.
Pode-se pensar, pelas descrições já feitas até aqui, que se tratava de uma espécie de “sociopata” que não se adequava bem às convenções da sociedade e que preferia viver em um mundo particular. Mas um pensamento de tal natureza não poderia estar mais equivocado.
Por essa necessidade sempre urgente de viver o presente, eram constantes em sua vida os momentos afetuosos ao lado da família ou dos amigos – novos e antigos – que sempre teve em vasto número. O afeto, dizia ele, é minha maior riqueza. Por isso é com ele que preencho a maior parte do meu pouco tempo.
Na verdade, ele só aceitava voltar-se para o passado se fosse em alguma conversa que estivesse ocorrendo em momento presente. Isso ele adorava. Um dedo de prosa com amigos e parentes, sempre carregado de anedotas e risadas, era uma parte constante de seu cotidiano.
Outra frase que costumava repetir era a de que não havia um dia em sua vida que ele abraçasse alguém. E não entravam na contagem os abraços que são dados por educação, somente aqueles abraços apertados, que são as mais sinceras manifestações de afeto.
Depois que se aposentou, passou a ser um hábito viajar para alguns dos lugares que sempre desejou conhecer. Às vezes com a família e amigos e, quando os seus não podiam ir com ele, sozinho, por saber que seria capaz de fazer amizades em qualquer lugar que fosse.
E, quando não estava viajando, o que havia de repetitivo em seu tão criativo cotidiano eram as visitas que recebia de seus familiares e amigos, acompanhadas sempre de um café ou um chá, ou que fazia às pessoas queridas que há mais tempo não tinha mantido contato.
Por isso, apesar de nunca visitar cemitérios e de ter um impressionante desapego pelo passado, ninguém jamais questionou a afetividade desse homem, mesmo que o luto pela morte de alguém que era querido fosse superado rápido demais. Era sempre com um “nos veremos em breve” que, internamente, se despedia dos que já foram.
Muitas dessas pessoas que eram cativadas por seu afeto insistiam em ter uma foto dele, para colocar em um mural, ou álbum ou porta-retrato. Mas, diante dessa insistência, ele sempre respondia dizendo que, se a pessoa sentisse saudade dele e tivesse vontade de vê-lo, poderia perfeitamente visitá-lo ou, quando as distâncias eram longas, falar com ele através dessas câmeras e telefones que embutiam nos computadores de hoje em dia e que ele utilizava mesmo sem nunca ter entendido bem como funcionavam (não faltavam filhos ou netos para ajudá-lo com a parafernália).
À medida que foi ficando mais velho e com a saúde mais fragilizada, seus filhos pediam - por vezes, com lágrimas nos olhos - que ele permitisse uma foto com a família inteira, pelo menos para que os seus futuros bisnetos pudessem ver a imagem do lindo bisavô que não conheceram. Todavia, ele dizia que não porque, além dos motivos que sempre apontava, ele sabia que tal retrato poderia tornar ainda mais difícil a superação do luto que certamente acometeria a sua esposa.
Do mesmo modo, fez a mulher e os filhos prometerem que, ao morrer, ele seria cremado e que suas cinzas seriam jogadas de cima do lugar mais alto da cidade, para que, na incerteza de onde residiriam as sobras de seu corpo efêmero, as pessoas que dele sentissem falta matassem essa saudade indo aos muitos lugares que ele freqüentava ou conversando com os muitos parentes e amigos que ele tinha. Enfim, vivendo o presente.
E, para os que choravam perto dele, já pensando na dolorosa despedida, ele pedia que fizessem como ele: que agissem com fé, apostando em um reencontro, por mais que ninguém tivesse comprovado que ele ocorreria. Também dizia para honrarem sua memória celebrando a vida, que era o que ele mais gostava de fazer.
O seu dia finalmente chegou. Ele se foi e, em atendimento a um pedido seu, o velório foi feito com o caixão fechado, porque, dizia ele, “uma vez fora da vida, aquele corpo já não será eu, deixem que lembrem de mim pelos momentos que vivi com cada um”.
Assim, acabou sua vida tão intensa e com tão poucos registros de sua passagem. Mas como nem todo tipo de registro foi vedado pelas promessas que fizemos a ele, decidi escrever sobre a história desse homem, que muito ensinou a todos com quem conviveu, da forma que ele gostaria que ela fosse escrita: a partir de “dedos de prosa”, de passeios e de afáveis conversas com pessoas que lhe eram caras e que, em sua maioria, também são a mim.
Com essas palavras, encerro o prólogo deste livro que vos apresento.
(Felipe Rocha, 12 de janeiro de 2012)
A raiva nem sempre é um sentimento ruim
Há uma raiva que é boa e, diria até, necessária.
É a raiva que o oprimido sente do opressor
Da situação de opressão em que se encontra
E que as condicionantes históricas em que ele está inserido fizeram com que ele, finalmente, tomasse consciência dessa opressão e de que ele não deve aceitá-la pacificamente
É a raiva que sente o oprimido que se agiganta e deixa de ver o opressor como alguém que deve temer
Que pára de apanhar com o rosto cabisbaixo e segura, com firmeza, o punho do desgraçado que tenta violentá-lo
E olha nos seus olhos com um olhar tão duro que é suficiente para ecoar o “Basta!” que seu corpo e sua alma gritam
Essa raiva
que cerra os punhos dos injustiçados
que prevalece sobre o medo de represália e a descrença na impossibilidade de mudança que, até então, existiam
deve ser cultivada mesmo nos corações das pessoas mais amorosas
porque o desejo de libertação que a provoca vem desse mesmo amor que também se expressa no carinho
Sem raiva, não se faz revolução.
Por que tanta resistência?
Tanta relutância em não planejar...
Em não elaborar o discurso?
O que tanto temes?
Por que tanta dificuldade em deixar que flua a narrativa silenciada?
O que temes conhecer?
O que pode ser tão feio que não querias desvelá-lo, revelá-lo, trazê-lo à tona?
Por que tanto medo de perder o controle, se tu sabes bem que ele é ilusório?
Por que repreender se este outro é quem fala?
Deixe-se ir...
Espere...
Confie...
Tenha calma...
Que, em breve, tu conseguirás te ver...
A certeza de um “não” é libertadora
Não é por faltar amor que, hoje, eu te deixo
O que acontece é justamente o contrário
É tanto o amor que pulsa dentro do meu peito
Que alcança os corações dos mais desavisados
Como as meninas que, às vezes, eu te sirvo
Em um banquete que te enche de luxúria
Mas acontece que não só de moças nuas
Se satisfaz meu coração plural e misto
Também careço da parte que te machuca
Que são esses homens tão viris, tão masculinos
Que, por insegurança ou por puro machismo,
Tu não admites que eles me beijem a nuca
Não estou saindo por ausência de desejo
Ao invés disso, é, outra vez, o seu oposto
Pois, sabes o quanto este teu antigo corpo
Ainda revela os meus mais íntimos segredos
Se estou saindo é só por causa do ciúme
E dessas brigas que ele sempre provoca
E saio sem receio de fechar a porta
Por saber que não há remédio que o cure
Mas, hoje, sei que, inobstante as tuas críticas
Achar quem me aceite assim eu sou capaz
Por isto vou-me sem medo de, arrependida,
Mais uma vez, eu me trair e voltar atrás.
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