Crônica da cidade de Veradero


É difícil imaginar que poderemos ser capazes de dar atenção a outras coisas quando se apresenta diante de nós um vasto mar azul e transparente que desafia a beleza do outro azul que vem do céu que lhe cobre. Eu consegui, entretanto. 

A partir de uma singela pergunta quanto à possibilidade de conseguirmos outras cadeiras de praia além daquelas que já estavam ocupadas por gente de tantos países, pude ter uma breve conversa com o cidadão responsável pela segurança do local que me fez reforçar a convicção de que o que já de melhor em Cuba são os cubanos. 

Depois de responder que não havia outras cadeiras além daquelas, mas que poderíamos nos acomodar na areia sob a sombra que ficava perto de onde ele estava, perguntou de onde eu e minha esposa éramos. Ele ter se surpreendido com o fato de sermos brasileiros e ter dito que eu parecia mais cubano que ele me encheu de um orgulho bobo. Tanto por eu nutrir uma antiga admiração pelo povo cubano, quanto por me comoverem situações que me fazem sentir mais de perto um sentimento de fraternidade latino-americano.

O orgulho e a admiração que mencionei acima cresceram quando ele ressaltou algo que eu já havia percebido, ou pelo menos suspeitado. Ele nos disse que o povo cubano, seja os da cidade, os das praias do Caribe, os de Havana ou os “campesinos”, formavam todos uma grande família. Um único povo. Disse-nos também que em qualquer hora do dia ou da noite e em qualquer das paisagens da ilha homens e mulheres poderiam andar sem se preocuparem com violência ou assaltos.

Concluiu o seu orgulhoso discurso falando que tinha três filhos e que todos eles estudavam em boas escolas da província de Matanza.

Quando mergulhei no mar depois de vencer aquela primeira barreira do frio, que é como o medo que cessa depois que finalmente enfrentamos o desconhecido, pude notar o quanto aquele vasto mar comportava tantas pessoas diferentes. De lá, ouvi palavras em italiano, francês, inglês, português , 4 e em alguns outros que não consegui identificar. 

Talvez pelo o que havia me dito o pai de Alexandre, Manny e Pedro momentos antes, pensei no mundo e no mar não como um lugar de divisas e fronteiras, mas de encontros. A única barreira real não vinha da nacionalidade ou da cultura originária da pessoa, mas sim das condicionantes sociais, politicas e econômicas que impediam tanta gente de poder estar ali ou de desfrutar de uma paisagem maravilhosa como aquela.

Perceber- se como irmão de todos os outros nos traz esse desafiador sentimento de dever de que a vida não é um momento para nos preocuparmos apenas com nós mesmos. 
Voltei para areia minutos depois e pude contar mais uma vez com o carinhoso cuidado do cidadão cubano que oferecera sua sombra para eu e minha esposa nos alojarmos. Primeiro com suas dicas sobre o melhor momento para utilizar o pedalinho que ficava dentro d’água.

Depois foi ao ter minha identidade associada à nacionalidade que ele já conhecia. Estava perto do mar e o ouvi gritando de longe: “Brazil, Brazil!”. Era ele vindo nos dizer que duas cadeiras de praia tinham ficado vagas. 

Ele não sabia os nossos nomes e nós não tivemos o cuidado de perguntar o dele. Somente soubemos os de seus filhos, que ele descrevera com tanto orgulho.
Mas quando nos percebemos como irmão de todos, não carecemos de nomes para que haja cuidado e até mesmo afeto. Por isso, assim como não me incomodou ter sido identificado por “Brazil”, pouco me importa que ele fique nos registros de minha memória como o cidadão cubano que nos deu abrigo naquela ensolarada praia do Caribe.
(Felipe Rocha, 5 de janeiro de 2017)

Noite feliz



24 de dezembro é meu dia favorito do ano e sábado o melhor da semana. Mas me aborreci ao saber que este ano não poderia aproveitar bem essa coincidência.

Estava tudo planejado para eu encerrar meu plantão às 22:00, tomar uma ducha em meu apartamento e ir encontrar meus pais, irmãos, cunhados e sobrinhos na antiga casa em que fui criado.


Mas as deliciosas imagens dos cookies e do chocolate quente que minha mãe sempre prepara e do peru, do chester e do tender, das músicas de natal na caixa de som e da conversa gostosa ao longo do amigo secreto e da ceia foram por água baixo quando uma parturiente entrou gritando de dor no hospital.


Roberto, o outro residente R2 do setor de obstetrícia e ginecologia, que deveria ter chegado às 22:00, não comparecera e ninguém conseguia ligar ou enviar mensagens para ele.


Como a paciente já tinha dito que queria ter parto normal e a regra do hospital é a de que seja feita a cesariana apenas em situações realmente necessárias, não tive outra opção a não ser ficar para acompanhar a paciente, que já sentia as dores das contrações e que me deixou mais preocupado quando disse que não tinha feito nenhum exame pré-natal e que era hipertensa.


Ela se chamava Maria e era muito jovem e muito pobre. Os dentes bastante amarelos, apesar da pouca idade, a simplicidade de suas roupas e de seus chinelos gastos revelavam se tratar de mais uma menina cuja pouca educação a colocou nesta situação de pôr no mundo um ser humano que agravaria a sua miséria e que sofreria as consequências dela.


Enquanto as enfermeiras a acomodavam no leito e preparavam a aparelhagem para medir os seus batimentos cardíacos e a pressão arterial, eu enviei mensagens para o grupo da minha família informando que eles não deveriam me esperar para começar a ceia. Tive raiva de Maria. Por mais imaturo que fosse esse pensamento, não consegui deixar de vê-la como a pessoa que tinha estragado o meu natal.


Mas, enquanto eu me ressentia por todas as guloseimas e o calor humano da minha família que eu não desfrutaria, olhei a imagem de um pequeno presépio que fazia parte da decoração de natal dos quartos do hospital. Dentre todos os símbolos natalinos, eu costumava dizer que aquele era o meu favorito por retratar o verdadeiro natal, que celebrava a mensagem de humildade e compaixão inscrita na vida de Jesus Cristo.


Do presépio, meus olhos voltaram para o rosto contorcido de Maria e eu senti vergonha de mim. Me senti como aqueles da hospedaria que se negaram a receber os pais de Jesus, forçando-o a nascer em uma manjedoura entre os animais. No fundo, a vontade que havia sentido era a de dizer àquela outra Maria - negra, pobre e sem a companhia de um “José” – que fosse parir em outro lugar para que não atrapalhasse o meu natal. Por isso me envergonhei.


Engoli meu egoísmo e minha arrogância e fui até ela. “Você está bem?”. Eu lhe perguntei. Ela me respondeu, com lágrimas nos olhos: “Eu tô com medo.”. Embora o “medo” relacionado à atuação de um obstetra seja apenas o do parto, não pude deixar de perceber em seus olhos o medo de todo um futuro de desafios que se iniciaria com o nascimento daquela criança. Embora meus conhecimentos médicos só fossem suficientes para lhe repassar segurança quanto ao parto, eu apertei a sua mão e lhe disse: “Não se preocupe, vai dar tudo certo.”.


De fato deu. Às 00:03 ela deu à luz um filho perfeito e saudável, sem entrar em um quadro de eclampsia que eu temia que acontecesse. Eu pus a criança em seus braços e ela logo disse, com lágrimas nos olhos: “Ele vai se chamar Jesus, como o filho de Deus que nasceu no natal... Obrigada doutor...”. Emocionado, eu lhe respondi: “Jesus é um nome lindo...”.


Ver aquela Maria com o Jesus menino que eu havia ajudado a nascer foi mais comovente que qualquer cena dos filmes de natal que eu gostava de assistir em dezembro.


Vivenciar a representação real do símbolo natalino que eu mais admirava me fez lembrar que amar e querer estar perto de nossa própria família não é o que de mais importante se deve extrair do nascimento de Jesus. E sim a mensagem de que todo o amor, compaixão e tolerância que temos junto aos nossos familiares deve alcançar a todos os seres humanos com quem convivamos, em um constante exercício de alteridade. É por isso que Jesus chamava a todos de “irmãos”.


Grato por ter aprendido tão importante lição, retirei o bebê com delicadeza dos braços da mãe e o coloquei no berço. Cantarolei “Noite feliz” como uma canção de ninar para ele. Depois do último “Dorme em paz, oh, Jesus”, vi que ele de fato adormecera e que sua mãe estava em um estado de serenidade. Pude ir embora.


Apesar de estar animado por saber que as ceias de natal da minha família costumam adentrar na madrugada, já não estava tão ansioso quanto antes. O parto que acabara de realizar fez renascer em mim a importante certeza de que não é somente em casa que o amor floresce.

(Felipe Rocha, 25 de dezembro de 2016)

Aberta a caixa mágica de música

Ela tocou a canção certa daquela noite gigante

Soturna e de lua em netuno

Pena que meu lápis não piane e nem violine  

Um encanto dessa natureza daria profundidade à descrição escrita

 

Perdão se há tom de pesar nesta fatigante e humana ladradura

O que emerge da infusão das canções certas em noites agudas desfaz o recato que vem com a luz da estrela que brilha sozinha

Algumas epifanias se revelam no escuro, avessas que são às manhãs

 

Permita-me uns devaneios enquanto a bailarina ainda dança sob o canto da pequenina caixa de música

Enquanto ainda há corda que alimente o tilintar melodioso que faz som em canção e o mover-se cíclico da dançarina de louça, que traz sorriso ao semblante de quem se dana a contemplar o singelo

 

Às vezes, se me canso de mim, é o canto que me dissolve

E lembro que ser é muito mais do que sinto e penso e do que faço

A noite não é só berço de sonho 

Ali também desfazem-se dores envelhecidas

E, sob as canções certas, 

Refaz-se a leveza que tem os olhos da liberdade. 

(Felipe Rocha, 03:14)

O beija-flor e a flor de hibisco

Sentei-me ao lado da menina triste. Era banco de praça, era manhã que não ardia. Soubera de sua tristeza por seu olhar vago e por seu rosto cansado e sereno.

A minha presença não distraiu a atenção que ela devotava a um beija-flor que namorava uma flor de hibisco no canteiro que eu considerava o mais bonito da cidade. Ela parecia concordar comigo.

Só me percebeu quando viu que eu observava atentamente o caderno que ela segurava, cheio de desenhos de gentes e flores, belos e coloridos, rodeados de versos e aforismos tão bonitos quanto profundos.

Se houvesse intimidade, pediria a ela que me deixasse folhear aquele caderno que já me encantara só com a primeira folha e que me confirmou a ideia antiga de que as pessoas tristes percebem e criam a beleza como ninguém.

Seus olhos de âmbar encontraram os meus. Com o branco da praça e o vermelho do hibisco na periferia do meu olhar, me senti grato pelas cores vivas daquela manhã. Me vi num daqueles raros momentos em que a beleza é tanta que nós pensamos: só isto aqui já me valeu a vida.

Antes de eu conseguir encontrar palavra, ela me disse: você é tão bonito. Sorri porque foi exatamente aquilo que pensei em lhe dizer. Será que ela acreditaria se eu contasse?

Toquei em sua mão como quem toca as coisas lindas e frágeis. Mas ela apertou a minha com uma força de quem quer mostrar que o meu toque poderia ser o de quem toca o corpo de um amor antigo. À vontade e sem receio de golpe. Entrelacei os meus dedos nos dela e com a outra acariciei o seu rosto.

O seu semblante se iluminou em um sorriso. Bastava aquilo para que o momento se eternizasse em mim, mas ela me pediu sem rodeios: me beija. Naqueles lábios e no abraço em que nos envolvemos, logo percebemos a reciprocidade de nossa avidez por carinho e pelo encontro. Sintonia e sincronia que deram mais beleza àquele desejo cujo florescer não tínhamos qualquer interesse em apressar.

A ansiedade nos deixa quando sentimos que finalmente chegamos em casa.

Não falo de uma súbita certeza enlace eterno. É só que nesses momentos que, em si, já valem uma eternidade, a dimensão do tempo deixa de fazer sentido.

Ela recostou a cabeça entre o meu ombro e pescoço e, com o braço esquerdo circundando suas costas e seu braço, eu e ela voltamos a contemplar o beija-flor namoradeiro. Ela começou a cantar baixinho uma música bonita e eu não sei por que ainda me surpreendi quando percebi que a sua voz era doce como uma bossa nova da Joyce.

Há momentos e encontros em que o encantamento e a empatia são tamanhos que tornam difícil não crer em destino.

Ficamos ali até a hora do almoço. Era só um banco de praça, éramos só duas pessoas mirando apenas um canteiro, uma flor e uma passarinho. Mas nada ali era pouco.

O Sol crescera e aumentara o brilho daquela manhã, feita de tanta cor e luz, mas que não ardia.

(Felipe Rocha, 5 de novembro de 2016)

O conto do amigo vermelho

“Eu gosto tanto de você, meu amigo vermelho...”. Foi a frase que mais me marcou no dia que tu me disseste que o teu hábito de não ir nunca ao médico finalmente tinha te pregado uma peça...

Eu gostava daquela alcunha. “Amigo vermelho”. Por ser muito de esquerda e muito dado às paixões, foi como me explicaste. Ainda cogitei te chamar de amigo azul,  pra destacar tua posição de centro,   mas não ia ficar legal. 

Eu gostava de poder te ouvir dizer que gostava “tanto” de mim.  Fossem os amigos tolos – a maioria,  infelizmente – algo assim só sairia com muita bebedeira e nunca com olhos postos nos do outro.  Os imbecis ainda julgavam expressões de afeto masculino como coisa de maricas e ainda depreciavam quem o era.

Com a gente não tinha disso. Tínhamos nossas mulheres e nos abraçávamos e declarávamos a satisfação mútua com aquela amizade sem qualquer culpa ou receio;  como duas pessoas que se sabem irmãs,  embora de ancestralidade distinta.

Agora eu  estou aqui sozinho na tua biblioteca fumando teu cachimbo, espalhado na confortável poltrona onde tu escrevias teus poemas. Margarida folheava um livro da tua estante, não que tu mesmo escreveste. Era algum dostoiévski com anotações tuas de caneta nas laterais. Tornara-se um hábito dela perseguir teus rastros deixados no tanto de coisa que tu escreveste,  como se, de algum modo,  eles a aproximassem do marido que lhe tornara viúva. 

“Lê aí pra mim, Margarida.”. Eu pedi. Era difícil perder o hábito de passar algumas madrugadas aqui, que tinha tanto riso, tanta cultura e até o charme de uma lareira, parecendo uma toca de hobbit. E a minha presença ali constante me deu intimidade suficiente pra eu pedir à tua viúva que saísse um pouco do seu transe e compartilhasse comigo o que lia.

Dois tolos a procurar teu fantasma naquele recinto de tantos escritos.  Eu já nem lembro o que dizia a mensagem lateral no livro do russo. E nem me importava. Admirava demais o teu talento com as palavras,  seja em prosa ou em verso, mas dali o que me importava era que fosse inédito. Ouvir ou ler palavras novas, proferidas por quem já partiu, traz essa ilusão de presença. 

Margarida foi dormir e só me desejou boa noite. O “fique à vontade, a casa é sua” já nem era necessário.  Ela já tinha entendido,  bem antes da tua morte,  que era praquela biblioteca burguesa que eu ia sempre que carecia de repouso do espírito.

Ela já me permitia até levar umas amigas coloridas pra lá, nos dias mais difíceis. Talvez ter se tornado colega de viuvez tenha feito ela compreender que alguns pecados são perdoáveis quando a solidão dói de forma tão aguda.

Mas hoje somos só eu, a poltrona e o cachimbo. Lembrei de ti me dizendo, já moribundo, pra eu escrever quando não pudesse conversar. Que isso sempre te fazia bem.  Eu não curto muito verborragia sentimental, mas hoje segui teu conselho. 
Pus tua máquina de escrever no colo e saiu isso aqui.

 Queria ter o teu talento de encerrar textos com as frases mais fodas, mas não tenho. 
Só consegui pensar:  Por que logo tu foste morrer, porra?!

A lágrima que não derramei no teu enterro manchou o papel. Que merda.

Eu tinha decidido amassá-lo e jogar na lareira. Seria poético. Mas pensei duas vezes e decidi só jogar no chão mesmo. 

Quem sabe essa qualquer coisa que escrevi não sirva pra fazer Margarida te sentir mais próximo,  né? 
(Felipe Rocha, 19 de outubro de 2016)

Desperto, enxergo, em primeira infância
Feixes de luzes, cores, aturdido
Gota em deslumbre de tanto oceano
Diante do mundo, só consigo Ver

Melhor ciência do corpo que ocupo
De minha voz e mãos, ego e presença
Retorna o olhar pra dentro, reflexivo
Diante de mim, desejo apenas Ser

Reconhecido em si, busco contigos
Satisfação de tantos apetites
Ardem desejos, explosões e o viço
Diante de tudo o que eu quero Ter

Mas como o rio que nunca descansa
Percebo desmanchar o que me rodeia
Temo o desfecho certo da aventura
Diante do nada, só quero Viver

Tecendo auroras, não temo o vazio
Nas primaveras ca(n)to o joio e o trigo
Se o tempo é pouco, enorme é a experiência
Diante da vastidão, sigo a Correr

Velocidade, salto, alço voo
Longe de onde sou somente o mesmo
“Tudo” é palavra que requer limite
Distante, alcanço, enfim, o Transcender.


(29 de setembro de 2016)

 

Crônica de uma manhã de domingo

Hoje tive um sonho estranho. Sonhei que ia a um show de um conjunto que um amigo meu integrava que se vestia com roupas pretas com detalhes prateados e que cantava Zero do Lineker.

O show acabava mas a festa continuava em um lugar que parecia o hall de entrada do Teatro Arthur Azevedo. Ali, depois de comprar um bilhete pra participar de um sorteio de uma codorna recheada com alguma coisa que devia ser gostosa mas que já não lembro o que era, eu bebia um copo de licor com um primo de Flávia, cujo filho ainda vai nascer, e brindava em respeito à tradição de “beber o mijo” do menino. A presença do futuro poderia já ter me alertado da natureza de sonho da cena. Mas não.

Enquanto brindava, via a minha avó materna conduzindo meu avô pelo braço e, a passos lentos, observei eles deixando o recinto. Tchau vó! Eu disse de pronto e ela me respondeu com um sorriso. Mas logo em seguida completei: Tchau vô... A estranheza do complemento nem foi pelo fato de já fazer quase 5 anos que meu avô faleceu. Não me dei conta disso naquele momento. Foi porque depois que ele se tornou senil eu pouco falava com ele, pouco o cumprimentava.

Foi preciso a sua ausência se fazer presente pra eu perceber o quanto foi um erro agir assim. No sonho me senti feliz por ter tido a delicadeza de me despedir daquele senhor que, a passos lentos, deixara o lugar em que eu me encontrava, ainda que ele não pudesse responder.

Após aquele onírico encontro do passado com o futuro eu despertei.

O despertar, no entanto, foi leve, apesar de logo me ter vindo a lembrança de que o meu avô foi embora sem que eu tenha tido a oportunidade de me despedir dele. Minha avó ainda alertara que seria bom os familiares irem visitá-lo logo porque ela achava que ele não resistiria por muito tempo. Mas eu fui dar aula. E como os celulares ficaram todos fora do ar naquele dia, minha mãe não pôde me avisar que o quadro dele efetivamente piorara.

Acordado, me lembrei do seu sorriso e a paz que essa lembrança me trouxe me mostrou o quanto alguns laços afetivos são tão profundos que mostram a sua força mesmo que o tempo e a distância digam não.

Pensei também que a sensibilidade que desenvolvi por quem é idoso e/ou senil depois que meu avô partiu, além de um ato de redenção, pode ser o meu futuro me lembrando que eu posso estar nesse lugar, quando for um octogenário hipertenso.

A experiência desse primeiro luto me ajudou também a já não me assustar pelo fato da vida ser tão pequena em quantidade de tempo.

Neste encontro do passado com o futuro, percebi que eu acordei cedo.

(Felipe Rocha, 25 de setembro de 2016)

Crônica de uma tarde tropical

 

Era uma tarde de quarta-feira muito quente para se vestir terno. Mas, dentre os ossos do ofício que escolhi, tem esse de se empacotar mesmo nas mais tropicais paragens.

A espera pela audiência e a sensação de que poderia estar utilizando aquele tempo para trabalhar nas tantas coisas que eu tinha para fazer reforçavam ainda mais a vontade de não estar ali, como se o calor já não fosse suficiente para tanto.

Mas, ali estava. Sentei ao lado do Benedito e em poucos minutos repassei informações atualizadas do processo e da audiência que ocorreria. Não me lembro exatamente o porquê, mas Benedito queria me mostrar algum documento que ele guardara em um enorme fichário preto, em que constavam milhares de papéis devidamente guardados nos seus respectivos plásticos.

Enquanto ele folheava a pasta que parecia conter os registros de toda a sua já longa vida, eu vi que constava, dentre tantos documentos, uma folha em que estava anotada, à mão, a letra e os acordes de “O ciúme”, do Caetano.  Ali tive certeza que a pasta não guardava apenas registros da vida profissional de Benedito. Mas, ante a ausência de intimidade eu nada disse e nem perguntei, embora curioso e intrigado.

A espera foi bem maior que o tempo necessário para discutirmos sobre a ação de aposentadoria dele e sobre os documentos que ele gostaria que eu analisasse, por isso conversamos sobre assuntos diversos.

Benedito me contou algumas de suas aventuras da juventude. Que era comunista na época da ditadura militar e que quase foi preso porque permitia que a rapaziada de esquerda se reunisse na calada da noite na sede do tribunal em que ele trabalhava como vigilante.

Naquele momento, a vontade de não estar ali foi embora. Olhando para aquele velho negro de boca banguela e de olhos vermelhos, me lembrei de uma lição simples que a vida já tinha me ensinado, mas que, por vezes, teimo em esquecer: cada vida carrega todo um universo dentro de si.

Talvez por perceber o meu interesse em conhecer as suas histórias, Benedito conversou com uma leveza que é rara na relação entre advogado e cliente. Pelo menos até a audiência começar, eu me desloquei do papel de advogado de Benedito para o de alguém que simplesmente queria aprender com a história de vida daquele sujeito.

Depois de um tempo razoável de prosa, ele finalmente me perguntou: tu sabes qual é a música mais bonita do Caetano Veloso? Eu, de pronto, respondi: O ciúme?. Ele sorriu e abriu o livro de sua vida na página que guardava a letra cifrada que ele fizera questão de manuscrever.

Eu estranhei, a princípio, ele não ter me dado qualquer explicação sobre por que tinha aquela música em tão alta conta, ainda mais sendo uma música que canta um sentimento que considero tão feio. Mas depois me convenci: como explicar a beleza da arte?

Mais tarde, tocando a música no violão e percebendo como ela me fazia passear pelas estradas do nordeste e pelas águas doces que amenizam o calor que o castiga, é que tudo ficou mais claro.

Também não deu para escapar da beleza sutil de trechos como “Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia/Tudo esbarra embriagado de seu lume...Velho Chico vens de Minas/De onde o oculto do mistério se escondeu/Sei que o levas todo em ti, não me ensinas/E eu sou só eu, só eu só, eu...”.

A audiência finalmente começou e o juiz percebeu que tinha sido por engano que ela tinha sido designada, já que toda a prova produzida era documental. Mas não me zanguei.

Saí da audiência e apertei a mão de Benedito embora tenha sentido uma vontade de lhe dar um abraço. Me senti mais uma vez grato por trabalhar para trabalhadores e no caminho de volta para o escritório, tirei o paletó e a gravata, subi as mangas da camisa e abri a janela do carro para sentir mais de perto o Pôr-do-sol, embriagado que estava de seu lume.

 

(Felipe Rocha, 26 de agosto de 2016)

Luzes e silêncios 

A noite,  definitivamente,  estava mais estrelada do que de costume. Eu comentei com minha avó. A sua resposta me fez lembrar que ela é bem mais antiga do que eu: é que aqui não tem a luz da cidade meu filho. A luz nem sempre alumia,  ela também escura a vista, às vezes. 

Na casa de veraneio de minha vó , que ficava em cima da serra onde ela ermitava por alguns meses,  eu vi, ao longe, as luzes urbanas da cidade,  lá embaixo. E, bem acima de mim, aquele manto de estrelas que cobria de um canto a outro do horizonte. 

As imagens e a sabedoria simples da resposta de minha vó poderiam fazer minha cabeça viajar por profundas filosofias. Mas, naquele momento, o que eu quis foi silêncio. Como o distanciamento das luzes da cidade revelava o brilho sutil das estrelas noturnas,  senti que o silenciamento da minha mente, usualmente inquieta, tinha muito a me dizer. 

Não estava enganado. 
 
Em silêncio,  ouvia o ranger que o balanço da cadeira de macarrão provocava ao me embalar, enquanto minha vó preparava um mingau de milho, mesmo fora do período junino,  por saber o quanto eu apreciava a iguaria.  

Ela me deu uma caneca cheia e fumegante, que veio bem a calhar naquele frio de serra, e sentou ao meu lado soprando a que preparara para si, na cadeira posta ao lado da minha. 

Os seus filhos nunca entenderam porque ela insistia em passar alguns meses ali, mesmo após o óbito do meu avô, que também adorava aquela refúgio . 

Mas ficar ali com ela um punhado de horas vendo a lua subir, com o cheiro nostálgico do mato penetrando as narinas,  realmente teve um quê de epifania. 

Recolher-se não tem apenas o sentido de isolar-se. É, também,  e sobretudo, encontrar abrigo. Nos acostumamos tanto a ter nossos pensamentos e sentimentos mediados por palavras e ações que esquecemos de dar a devida importância àquilo que está acima ou abaixo de nós ou em nosso entorno.

O brilho de uma noite dá tanto valor ao tempo. 

E completava o aconchego do cenário  aquela ternura subjacente, revelada não só no compartilhamento de um mingau, do par de cadeiras de balanço ou dos tragos do cachimbo que fora do meu avô. Mas também na cumplicidade surgida entre duas pessoas que,  embora do mesmo sangue,  tinham tudo para manterem-se distantes, ante a diferença de gerações e os inúmeros compromissos que tornavam meu tempo exíguo. 

O restante da família ficava apenas aliviado em saber que a minha avó não ficava o tempo todo sozinha na serra, pouco se importando em participar do que consideravam uma excentricidade dela. 

Já eu,  talvez por não saber descrever adequadamente a riqueza de tudo aquilo,   sorrio com meus botões, feliz por ter deixado o meu ego nas luzes da cidade que,  de cá,  parecem tão pequenas. 
(Felipe Rocha, 12 de agosto de 2016)

Sonhei contigo hoje

Teu sorriso me atingiu como a beleza dos ipês em flor do cerrado ao despedir-se de julho
Ouvi o timbre e o tom da voz de quem é feita de versos
Uma conversa animada, qual roteiro de livro ou filme inteligente
E a sutil aproximação que magnetiza um par que se quer

Cruzar de olhos que revela as entrelinhas
E que trouxe uma alegria matutina a um coração que pulsava tão adolescente

Abri os olhos e se desfez a onírica fantasia

Atordoado com a súbita consciência da distância, não soube responder se foi bom ter sonhado contigo

Busquei flores nos canteiros de minha varanda, mas ali não havia cor, só um contagi(g)ante silêncio
Foi preciso encontrar a música certa na discografia do Chico para eu voltar a cantar

Ainda intrigado com as memórias da textura da tua pele, das covas e do som do teu riso, inventadas por um sonho fértil, versejo sobre as miragens que a manhã me trouxe para lhes dar sentido

Na solitude de uma noite alta, lembro do sábio conselho de fazer arte para lidar com o desalento
Ainda que mera verborragia insensata e incessante, sem qualquer valor estético.

Foi bom sim.
Concluo.

(Felipe Rocha, 3 de agosto de 2016)

Mais feliz

Quando o olhar para e a boca aquieta
Em movimento só o peito constante e as pálpebras esporádicas
Ouço o canto distante de um pássaro vespertino
E sinto a brisa de verão fustigando os meus pelos
Observo na avenida o fluxo eterno dos carros que a trafegam

Sereno.

Saio de mim de novo e me torno maior que eu
Parte de um mundo gigante que me inquieta
Matéria pensante, longe de ser única, mas tão rara em universo
tão vasto

Re-pouso

Na rede amarela e branca que contém meu corpo e tantos pensamentos
Decanto, desta alma que se sente velha, os fragmentos que borram o olhar límpido de quem respeita a beleza das paisagens e do porvir
Enquanto ouço alguém falar do dia em que foi mais feliz
Penso em pessoas que fazem olhos brilharem, incitam desejo de abraço e fazem corações pulsarem com força

Me sinto parte dos outros
Me sinto feito de sonhos.

Suspiro.

(Felipe Rocha, 24 de julho de 2016)

Jazz

 

Era quinze pras três. Não considerava tão tarde porque sempre que vou ao Rio durmo um pouco antes do Sol chegar. Gostava do samba da lapa, mas naquela noite eu preferi ficar à beira da janela do restaurante do hotel na companhia de uma xícara de café e do meu cigarro, ao som do jazz que o barman escolhia sempre com muito bom gosto.

Emergi dos pensamentos nostálgicos que aquela cidade me trazia com o pedido de fogo de uma charmosa mulher que tinha uns estonteantes blue-eyes, que deixariam as atrizes francesas de antigamente no chinelo.

Conversamos. Ela quis saber por que bastou eu apontar a carteira de cigarro para o barman para que ele anuísse com o fumo, inobstante uma indiscreta placa que continha a proibição de fumar naquele recinto.

Expliquei a ela que quinze anos de amizade e de fidelidade àquele hotel tinham me conferido algumas regalias, como a de poder fumar quando a noite já estava muito alta.

Embora a cidade me remetesse à memória de outra mulher, não consegui evitar a hipnose daqueles olhos e logo estava me empenhando para não ir sozinho para o quarto naquela noite.

Às três e meia eu sentei ao piano, liguei o abafador e pude ver, de soslaio, o barman sorrindo por achar que era golpe baixo eu utilizar o piano para garantir a conquista.

Toquei a minha preferida do Chet Baker e me animei ao perceber que ela só olhava para os meus olhos e em nenhum momento para as minhas mãos. Sentia falta de um trompete, um baixo e um chimbal para dar o tom noturno que a música pedia. Mas o piano foi suficiente para entreter a moça, o barman e a mim mesmo.

Depois ela disse, “Agora é a minha vez”, e se sentou ao meu lado no piano. Começou a tocar e a cantar maravilhosamente bem um outro jazz que eu nem conhecia e que sorri olhando para o barman quando ouvi seus primeiros versos: “It seems like hapiness is just a thing called Joe...”. Nós sorrimos pela coincidência.

Embora a moça não soubesse, eu e o barman nos chamávamos de Joe, apesar nossos nomes nada terem a ver com essa alcunha. A explicação dos apelidos vinha de duas músicas de jazz que ambos gostávamos. O barman era o “Joe” que conversa e serve bebida pro Sinatra em “One for my baby, one more for the road”.  Já eu fui apelidado de “Joe” por causa do meu fumo, que fazia o barman se lembrar do bar “Smokey Joe’s”, cantado por Nat King Cole e outros grandes nomes do jazz.

Teria ela ouvido o barman me chamar de Joe? Não tive coragem de perguntar e talvez nunca venha a saber. Mas há tantos episódios inusitados em minha vida que eu não duvido que tenha sido mera coincidência.

Quando a música acabou o outro “Joe” a aplaudiu mas eu preferi pegar a sua mão e beijá-la, como se estivesse cumprimentando uma dessas moças chiques de antigamente. Pretendia assumir uma postura mais “ofensiva” dali em diante, mas o pedido que ela me fez me desestabilizou: “Toca Casablanca”.

Eu sabia que ela se referia a “As times goes by”, que é a música do filme, mas eu silenciei os dedos e os lábios. “Play it, Sam”. Ela ainda brincou, imitando uma das falas mais famosas do filme. E eu, ao invés de fingir que não sabia tocar a música, olhei em seus olhos e respondi com uma exagerada seriedade e uma desnecessária e inapropriada sinceridade: “Agora não... Hoje não...”.

Ela me olhou intrigada, tentando entender o que tinha me atingido.

A lembrança daquela música, no Rio de Janeiro, me fez pensar naquele fim de semana que passei com a garota que marcou tão profundamente a memória daquela cidade em mim. Dias de muitos sorrisos, muito romance, de carinhos na areia de Copacabana, dos passos de samba de gafieira na Lapa, de noites e manhãs entre os lençóis daquele mesmo hotel, em que nos misturávamos e nos fundíamos e das lágrimas da inevitável despedida. Antes de entrar no avião, eu disse a ela: “We’ll always have Rio”, parafraseando a célebre frase que Rick diz para Lisa no final do filme.

Demorou uns vinte segundos e uns dois tragos do cigarro para eu conseguir voltar daquela imersão nostálgica para o par de olhos azuis que me observava atentamente. Mas a seriedade dela não foi a de quem sente que constrangeu o outro ou de quem percebe que tocou em feridas abertas. Foi aquela que nos toma conta quando percebemos o quê de mistério que a profundidade do olhar do outro carrega.

Nos beijamos. Eu sentia o desejo transbordando por seus poros e suspiros, mas sabia que aquele beijo carregava mais um quê de “você não está sozinho” do que o de “eu quero você em mim”.

Separamos os lábios e continuamos ali, no estreito banco do piano, nos tocando com suavidade. Retomamos a leveza da conversa quando eu perguntei o seu nome. Ela sorriu por perceber que já havíamos compartilhado tanto em tão pouco tempo, sem sequer sabermos como cada um se chamava. Estendi o dedo para o Joe e ele soube que eu pedia uma dose de Bourbon.

Fiquei um bom tempo contemplando o belo par de olhos azuis e a bela curva que aquele sorriso vistoso formava. Os pensamentos, contudo, mantinham-se na lembrança daquele marcante fim de semana com outra mulher.

Em outra ocasião, eu, em poucos minutos, a convidaria para subir ao meu quarto, onde eu iria passear por outras curvas daquele corpo. Mas já tinha vivido o bastante para adquirir uma serenidade que me permitia reconhecer quando o momento não é adequado para que um determinado evento ocorra. E pensei: “Agora não...  Hoje não...”.

Gentilmente eu lhe perguntei se ela aceitaria jantar comigo no dia seguinte no meu restaurante favorito da cidade maravilhosa. Ela disse que sim e, antes que eu pedisse, colocou um guardanapo na minha mão com seu nome e telefone, que eu nem a vi anotar. Me beijou a boca e me disse, “dorme bem, tá?”. Nesse singelo “tá” eu percebi que ela compreendera o que se passara e que era mais parecida comigo do que eu pensava.

Devolvi o cinzeiro ao Joe, que parecia impressionado com o fato de eu deixar o recinto sozinho. Quando aguardava o elevador, ouvi “Something cool” tocando no som ambiente. Esse Joe sempre sabe a música certa para cada momento, foi o que pensei.

Cheguei ao meu quarto cansado, mas sem vontade de dormir. Ante à falta de retratos daquele inesquecível fim de semana carioca, pus me a escrever sobre o que acontecera naquela noite cheia de memórias e de jazz. Essa era a minha maneira preferida de lidar com a saudade.

Encerrei a última linha e, como de praxe, fui dormir um pouco antes do sol chegar.

Tive um sonho bom.

(Felipe Rocha, 17 de junho de 2016)

 

S.O.S

 

Ele jamais pensara que as suas olheiras pudessem fazer alguém achá-lo atraente. Mas foi exatamente isso que sentiu ao ouvir uma jovem de vinte e poucos lhe dizer que era apaixonada pelo desassossego que havia em seu olhar.

Tinha dificuldade de entender que charme poderia haver em um olhar tão exausto e inquieto, mas gostou da palavra “desassossego”. Achou que traduzia bem o que ele era quando a alegria encerrava as suas breves visitas e voltava para casa.

Era sexta-feira à noite. A sua ex-mulher devia estar passeando com o novo marido e os filhos, já adolescentes, deviam estar entretidos com seus smartphones, notebooks ou com os amigos e namoradas. Pensou em ligar para a moça linda e voluptuosa que conhecera na academia e com quem tinha saído para uma noitada na semana anterior. Mas ao pensar nas conversas sobre bolsas de marca vendidas por preços baratos na 25 de março ou nos comentários sobre as vestes bregas de alguém presente no recinto, ele suspirou e pensou que nem o melhor dos sexos fazia valer a pena passar por aquilo.

Deixou o telefone de lado e olhou detidamente para o seu apartamento, gigante demais para um cara que mora sozinho. Encheu um copo de Old parr, mas nem tomou ele todo. Tampouco fumou o baseado guardado em sua gaveta. O entorpecimento lhe parecia uma saída inútil, naquele momento. Deu uma zapeada pelos filmes do netflix, mas não achou nada que lhe interessasse e, quanto mais procurava, mais percebia o quão patético era buscar solução para o seu mal-estar em duas horas de entretenimento vazio. Desligou a TV.

Sentou-se no confortável sofá da sala e ficou observando os vizinhos do prédio da frente. Quis ter um binóculo para ver com o que cada um deles preenchia o parco tempo de suas vidas vazias. Desviou o olhar da janela, olhou as pinturas na parede do apartamento, as fotos nos porta-retratos, os avançados aparelhos eletrônicos que conferiam uma atmosfera futurista à sua sala de estar e percebeu: Há algo de errado.

Não nas coisas belas e muito bem arrumadas que o cercavam. Mas nele mesmo. Como alguém que conquistara tanto desde cedo podia sentir um vazio existencial de tão grande magnitude?

Ele não sabia explicar. Pensou em tomar um ansiolítico que um amigo seu lhe dera, tempos atrás, mas não queria saber de fuga. Não naquele momento em que acabara de perceber que era de fuga e de ilusão que a sua vida era cotidianamente preenchida.
Pensou que, talvez, se chorasse, aquele mal estar passaria e ele voltaria ao normal. Mas seus olhos não molhavam. Aquilo era o normal. Não havia motivo para choro. Pensou até em assistir algum filme emocionante só para permitir que as lágrimas caíssem, mas achou esse estratagema extremamente patético.

Foi até a varanda do seu apartamento e olhou lá para baixo. Mas, ao contrário do que poderiam pensar alguns leitores mais apressados, ele não cogitou se jogar para provocar sua morte prematura. Não haveria qualquer graça em mais essa fuga. O pensamento que lhe ocorreu foi: como eu queria poder voar!
Qualquer menino sabe que, quanto maior o tamanho da janela, maior é a vontade de ver mundo.

Deitou-se na cama, mas o sono não veio. Voltou, então, ao telefone. Embora fosse tarde e a época seja de mensagens frequentes e de ligações escassas, ele telefonou para a jovem que lhe dissera que se apaixonara por seu desassossego. Pensou que esse comentário refletia uma afinidade que talvez lhe ajudasse a lidar com tudo aquilo. Percebeu que o olhar dela também refletia esse desassossego que, agora, ele conseguia perceber que era belo. E desejou encontrá-la.

Ela atendeu, mas, para o triste espanto dele, recusou seu convite: desculpe... hoje eu não tô bem... eu prefiro ficar sozinha. Passaram-se dez segundos de um silêncio constrangedor. Ele não estava preparado para aquela recursa. E, sem entender bem por que, ele “abriu a guarda”, e disse àquela estudante de ciências sociais que ele conhecera na formatura de um sobrinho: eu preciso de ajuda....

Fez-se um silêncio de vinte segundos. Ela ouviu ele suspirar como alguém que tinha acabado de libertar suas lágrimas até então censuradas. E, finalmente, lhe respondeu: tudo bem. Eu chego aí em meia-hora. Me passa a localização do teu apartamento pelo celular.

Ela chegou e a noite foi bonita. Não porque houve romance e/ou sexo, como poderiam pensar alguns leitores mais apressados. Ainda que eles se desejassem, o que houve de importante naquela noite foi que, entre lágrimas, abraços, carinhos e conversas, aquele homem, que já tinha conquistado tanto em tão pouco tempo, finalmente percebeu que às vezes basta um pouco de empatia alheia para nos salvarmos de nós mesmos.

(Felipe Rocha, 2 de junho de 2016)

Lição de vida


Vive mais quem vê o sol nascer e se pôr em um mesmo dia, dizia minha avó. Nunca me disse o porquê. Sempre achei que era dessas crendices supersticiosas dos antigos, como vestir branco ou pular ondas em fim de ano.

Só hoje, quando o fiz, é que descobri o verdadeiro significado desse segredo ancestral que minha vó me passara.

Vive-se mais quando se vê a aurora e o poente de um mesmo dia porque quem o faz se permite contemplar a beleza no que acontece todo dia, rompendo o embrutecimento que a rotina traz e que ofusca as belezas cotidianas.

Além disso, quem se dedica a tal empresa começa a entender que uma vida plena não é feita apenas do que se faz mas também daquilo que conseguimos contemplar. Romper a bolha egocêntrica que mantém o nosso olhar e atenção voltados apenas para as nossas próprias atitudes e sentimentos é deveras importante para que consigamos compreender a beleza que há em sermos tão pequenos quanto breves.

Vive-se mais, quando se vê o sol acordar e dormir, mas não em quantidade de dias. Como dizem os versos do poeta, "durar não é estar vivo, coração, viver é outra coisa".

Às vezes uma única noite traz mais valor à vida que anos de exagerada contenção.

Minha avó me ensinou isso há tempos, mas só hoje consegui compreender. Por isso a ela sou muito grato.

(Felipe Rocha, 28 de maio de 2016)

Contigo

As madrugadas guardam as melhores surpresas. Não imaginei que um simples convite para subir na alta construção em que fica a caixa d’água do nosso condomínio se revelaria uma experiência tão especial.

Sempre carecemos de pouco para nos divertirmos e espairecermos a sós. Um vinho, um violão, uma toalha de piquenique e uns quitutes nos bastariam, mas dessa vez nossa criatividade parecia estar mais aflorada que o normal e levamos as tintas de tua aquarela e a minha máquina de escrever que comprei naquela loja de antiguidades.

Talvez a nossa criatividade cresça na mesma proporção da nossa necessidade de refúgio. E hoje foi foda. A luta diária contra algumas das consequências mais funestas da miséria e o  nosso humilde e constante combate às suas causas mais profundas é bastante gratificante mas é carregado de um sentimento de frustração que demanda essas esporádicas fugas, de tempos em tempos.

E hoje foi foda. Por isso não estranhei nem um pouco quando ouvi tu dizeres, de olhos postos nos meus, uma frase que, talvez em outro contexto, me assustaria: “há tanta dor em nós, né?”. Na mesma hora, lembrei-me de um outro dia em que, buscando distração num pôr-do-sol à beira do mar, tu saíste correndo e chorando sozinha. Pensei em te alcançar para encostar tua cabeça em meu ombro. Mas já te conhecia o bastante para saber que aquelas lágrimas quem deveria secar era o vento contra o qual tu corrias, não eu.

Voltando a refletir sobre tua pergunta, eu não tive coragem de acenar em concordância e nem consegui negar. Só tomei um gole gordo de vinho que expressou bem a minha contida anuência, de quem sente na pele o quanto é áspera a trilha de quem tanto sofre com as injustiças do mundo.

Mas depois que  a última gota da taça escorreu por minha garganta, apertei tua mão pensando que enquanto a dor estiver do lado de fora de nós e os nossos laços forem fonte de afeto e regaço, eu aguento.

Peguei o instrumento e, do meu jeito, toquei uma do João Bosco que sei que é das tuas favoritas. Dei graças a Deus por tu não perceberes o quanto enrolo simplificando aquela harmonia difícil. Pelo menos eu não desafino. Mas logo a minha preocupação por não ser   virtuoso foi distraída pelo desenho que pintavas no chão do lugar do nosso estranho piquenique.

Me espantou tanto a tua capacidade de conseguir compor uma pintura tão bonita em local tão improvisado, quanto as cores fortes e vivas, que contrastavam com a frieza daquela madrugada, e também a alegria que o sorriso da figura estampava, em contraste com o peso que os nossos corações sentiam em tempos tão difíceis para os sonhadores.

A súbita explosão de cores que atingiu o meu olhar me fez ver o céu noturno com outros olhos. Com as luzes das casas do condomínio já apagadas, aquela noite escura e fria subitamente se tornou uma pintura composta de um azul escuro muito intenso, um amarelo de lua cheia quase branco e salpicada de pequenos pontos brilhantes que nos cercavam e que me fizeram perceber que, para quem ama, é a noite quem revela que estamos cercados de luz.

Tu sempre falaste do nosso olhar, que é tão atento  às cores do mundo e ao que carregam os corações das pessoas. Disseste-me até que, quando menina, foi uma sereia do rio da tua terra que, encantada com a colorida coroa de flores que tu lhe deste de presente, te retribuiu com um feitiço que ampliava o poder dos olhos da tua face e do teu coração. Para que tu nunca deixasses de levar as cores vivas como as daquelas flores ao mundo e à vida das pessoas.

Olhei teus braços, tua blusa e até o teu rosto sujos de tinta e tive certeza que te amava. Te puxei pra perto de mim e ali trepamos próximos à lua e distantes do mundo.

Agora que dormes envolta na toalha que trouxemos, aproveito as últimas réstias desta noite infinita para datilografar qualquer coisa sobre este especial momento. O vinho na cabeça e o cansaço que sucede o gozo vão garantir que tu não acordes com o barulho da digitação, isso eu bem sei.

Te vendo dormir  tão displicente, recordo o dia em que, quando ainda morávamos em cidades distintas e distantes, tu me disseste ao telefone o quanto era bom e real quando eu te visitava em teu sono. “É tão bom sonhar contigo”, foi o que falaste.

Agora, às vésperas dos primeiros raios de sol que desafiam a noite, distanciado do mundo simultaneamente repleto de tantas agruras e tantas belezas, penso em como é importante te ter ao meu lado. Penso em como é linda a utopia que teus olhos espraiam e que a tua voz entoa em cada ato de mobilização política do qual participamos. Penso no quanto tenho sorte por ter, em ti, uma companheira – no sentido pessoal e político - com quem compartilho meus sonhos e que, como quis a sereia da tua terra, alimenta de cores vivas o meu olhar.

Pensando em tudo isso, concluo com firme convicção: “é tão bom sonhar contigo”.

 

(Felipe Rocha, 12 de maio de 2016)

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